segunda-feira, 11 de setembro de 2017

onde o videoclipe vira arte

Produtos audiovisuais como filmes de cinema e videoclipes tem suas próprias trajetórias e seus propósitos. Com as relações entre mídias diferentes, os pontos de contato entre cinema e televisão tem sido cada vez mais comum. Tem sido habitual, por exemplo, atores e atrizes que se consagraram no cinema estrelando produções para televisão e serviços de streaming. É também graças ao streaming que a nossa relação com videoclipes tem mudado drasticamente. Sem depender de horários específicos na televisão, artistas tem cuidado mais de construir seus discursos e suas estéticas através de ferramentas cinematográficas.

Vale contar que quando começa o burburinho nas redes sociais sobre o mais recente e maravilhoso videoclipe de todos os tempos, eu tenho um modo de lidar que é bastante particular. Vejo o clipe e comparo com All is full of love, da Björk. O clipe, gravado em 1999, teve direção do videoartista britânico Chris Cunningham e mostra uma relação erótica entre dois robôs. Os efeitos gráficos são impecáveis, a narrativa construída é emocionante e a voz de Björk só faz a gente ver amor em todas as partes (até na automação maquinal). É claro que usá-lo como comparação é um exagero da minha parte. A essa altura esse vídeo ganhou outro estatuto, depois de todo reconhecimento e prêmios que conquistou ainda na época de lançamento. Hoje já é objeto artístico: em mostra sobre a trajetória da cantora islandesa, realizada no MoMA em 2015, os robôs construídos para serem os protagonistas da história foram expostos junto com outros objetos que remetem à sua trajetória (como o vestido de cisne, de Marjan Pejoski).


Podemos convir que nem todos os videoclipes chegarão a este patamar de reconhecimento. Mas estamos em um momento em que grandes narrativas estão sendo construídas nesses pequenos formatos, cheios de ritmos e rimas. A pessoa que mais claramente tem transformado o videoclipe em algo cinematográfico chama-se Beyoncé Knowles e nada do que direi aqui é qualquer novidade. Desde o lançamento do álbum Beyoncé, que surgiu sem qualquer anúncio prévio em dezembro de 2013, com um clipe para cada música, a relação entre vídeo e canção na obra da cantora só ficou mais forte. Em 2016, ela levou a cinematografia a seu ponto mais alto: Lemonade foi lançado em 23 de abril de 2016, logo depois de um filme homônimo de 60 minutos ter sido exibido na HBO. A última faixa do álbum, porém, já era conhecida por seus fãs desde fevereiro daquele ano, porque às vésperas de sua apresentação no SuperBowl, Beyoncé lançou o clipe de Formation. A música foi apresentada ao vivo no maior evento televisivo dos Estados Unidos e foi alvo de polêmica por conta do pensamento conservador. Na letra da música, Beyoncé valoriza suas raízes e o clipe é cheio de referências a figuras históricas da luta negra no país. A crítica ao assassinato de negros por forças policiais e à displicência das autoridades a temas envolvendo essas populações (como as consequências do furacão Katrina em Nova Orleans) também é facilmente perceptível.


Só que Lemonade foi entendido como uma peça quase que autobiográfica de Beyoncé, sobre uma suposta traição de seu marido. Em 2017, Jay-Z então lançou o que também foi entendido como um pedido de desculpas pela traição: o álbum 4:44, com uma música de mesmo nome. Todo mundo gosta de uma bela história de amor, mas colocar essas obras recentes do casal Knowles-Carter como apenas uma forma de reconciliação perde um pouco da força do que eles estão fazendo, e isso fica claro sobretudo nos clipes que Jay-Z tem lançado. Entrevistado no Rap Radar Podcast, Jay-Z explica que não queria que os clipes fossem apenas "music videos", que fossem um retrato do que ele estava cantando, mas sim uma elaboração sobre temas maiores. E ele dá o exemplo do cartoon feito para a música The Story of O.J. que questiona como os negros foram — e são — representados na cultura popular (para saber um pouco mais do assunto, recomendo os textos de Suzane Jardim: "Dissecando as relações raciais através do caso OJ Simpson" + "Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana").


Depois do lançamento do álbum, os clipes foram aparecendo aos poucos no YouTube e cada novo era uma surpresa mais agradável que a outra. Adnis — com Mahershala Ali, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, por sua atuação em Moonlight; MaNyfaCedGod — com Lupita N’yongo, também vencedora de um Oscar, recitando o poeta persa Rumi; Moonlight — uma paródia sobre como seria se a série Friends fosse representada por atores negros; e Bam, gravado em Kingston, Jamaica, com Damien Marley, um dos filhos de Bob Marley.

Para seguir com o argumento, terei que continuar com mais um membro da família Knowles. Solange é irmã mais nova de Beyoncé, mas elas trilharam caminhos bem diferentes musicalmente. O cuidado estético, porém, é notável nas duas. A revista Interview aproveitou essa proximidade das duas — e o fato de que Beyoncé não dá entrevistas — e pediu para a primogênita entrevistar Solange sobre o álbum A Seat at the Table. Na conversa, elas falam sobre crescer em Houston, sobre as pessoas que as inspiraram, sobre as músicas que gostavam de ouvir. Beyoncé então pergunta sobre o tom de voz escolhido por Solange para as canções, ao que ela responde:

Foi bem intencional que eu cantasse como uma mulher que estava bastante no controle, uma mulher que poderia ter essa conversa sem berrar ou gritar, porque eu ainda sinto que quando mulheres negras tentam ter essas conversas, nós não somos retratadas como estando no controle, mulheres emocionalmente intactas, capazes de ter essas conversas sem perder esse controle.


Solange pretende então apresentar visões de mulheres negras que muitas vezes não estão representadas. Ela traz para a conversa, nesse lugar à mesa, seus pais e temas dolorosos como a não aceitação do próprio corpo ou cabelo. As batidas do álbum lembram o funk e o groove dos anos 1960, mas os assuntos tocados são recentes e históricos. Os videoclipes de Cranes in the Sky e Don't Touch My Hair apresentam apenas artistas negros em cena, como forma de rebater a pouca ou má representação que domina os meios de comunicação. Em entrevista para Tavi Gevinson, Solange deixou ainda mais evidente a importância da representação de alegria e felicidade ao mesmo tempo em que toca em pontos traumáticos.
A arte sempre vai refletir seu tempo e não vai ser sempre bonita e embrulhada a mão e entregue com um laço em cima. Eu me sinto muito bem de ter podido me permitir fazer as duas coisas. Eu me permiti, como uma jovem mulher negra, provocar alegria negra, e felicidade negra e mostrar que, sim, nós podemos estar em um espaço e ser felizes e exuberantes e nós podemos também provocar dor e raiva. Nós somos pessoas com nuances e devemos ter permissão para expressar essas coisas sem ter o contexto da “mulher negra com raiva”. Eu me sinto ótima porque eu fiz isso.


Lá atrás, deu pra ver que o vencedor do Oscar de Melhor Filme Moonlight apareceu como referência direta para Jay-Z. Mas foi ELEMENT de Kendrick Lamar estrear no YouTube para eu voltar a pensar em tudo que aquele filme tinha me feito sentir. O principal pensamento era sobre como se forma a masculinidade. Sobre como discutir gênero desconstruindo feminilidade é importante, mas como repensar símbolos de masculinidade deve ser cada vez mais fundamental. Em um contexto cheio de aparências ("Eu estou tão enjoado e cansado de Photoshop/Me mostre algo natural, como um afro em Richard Pryor") e ostentação — tanto material quanto sexual — Lamar apresenta em DAMN seu retrato e sua crítica ao mundo a que pertence, ao mesmo tempo em que garante que não vai escutar calado jornalistas dizendo que o hip-hop causou mais dano aos jovens negros nos Estados Unidos do que o racismo. Assim, vemos novas histórias sendo criadas em forma de rimas rápidas e vídeos curtos.

Se quando éramos adolescentes, passávamos horas na frente da televisão torcendo para o nosso videoclipe favorito estar entre os mais votados da parada das 18h, é com certeza uma sorte poder ver esses daqui quando quisermos e bem entendermos. Porque, afinal, não é por não estarem em exibição dentro de um museu que não podemos considerá-los obras completas — e bastante complexas — de relações sociais conflituosas e, ao mesmo tempo, fontes de apreciação estética através do uso de câmeras e ilhas de edição.

Nenhum comentário:

Postar um comentário