quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

a girl's best friend, II


Não sei que pessoa meus cachorros pensavam que eu era, e eles jamais entenderiam se eu dissesse que ao invés de ser quem eles supunham que eu fosse, eu preferia mesmo era ser tão boa para os outros como eles sempre foram comigo. No dia em que a Luma morreu, eu senti mais falta dela quando lembrei de todas as vezes em que eu chorava e ela ficava por perto, me distraindo da minha dor. Naquele dia, não teria mais isso. Eu pensei nela o dia inteiro e, para além da implacabilidade do tempo como me ensinou a morte do Feroz, eu me lembrava de tudo o que aqueles dois seres me ensinaram.


A Luma tinha uma alegria constante que eu não entendia bem de onde vinha. Durante minha época de colégio, eu sentia a alegria dela aos sábados às 7h, porque era a hora em que ela pulava na minha barriga, supondo que eu estava atrasada para a aula. Eu dizer "Luma, é sábado" não adiantava muito, e ela só sossegava com uns cafunés atrás da orelha. Foram só nos últimos anos que passou a se isolar quando via muita gente por perto e não tinha muito ânimo com os cães mais novos que apareciam em casa. Ela parecia ver bondade em toda parte e, mesmo assim, criava estratégias para não se prejudicar. Era notável que enchia a boca de comida, e ia para um canto, deixando a tigela livre mas sem perder os pedaços de carne que eram seus por direito.


Ela parecia meio tonta quando tentava cuidar de passarinho morto enquanto eu e minha mãe gritávamos para que ela o largasse. Ela também não podia ser solta da coleira que perigava ser atropelada porque se animava e saía correndo sem muito rumo. Numa dessas, ela fugiu um dia de casa, quando minha mãe abriu o portão. Desesperada, passei o dia andando pelo bairro porque sentia que ela não saberia se virar sozinha. No dia seguinte, ela apareceu dentro de casa imunda como se tivesse dormido debaixo de um carro, mas com a cara alegre de sempre, como se fosse um dia normal. Essa história permanecerá um mistério, bem como o porquê de ela enterrar pães franceses no quintal. Mas, vejam bem, um dia voltei da escola e ela tinha, sabe-se lá como, dado à luz cinco filhotes e limpado-os em algum tempo recorde. Eu nunca entendi muito bem como uma cachorra que nunca aprendeu a tomar água sem engasgar (sério, ela engasgava toda vez) tinha total capacidade de fazer o próprio parto sozinha.


Eu lembro de contar para minha mãe sobre a minha menarca anunciando que no mesmo dia a Luma tinha entrado no cio, porque, afinal, eu sempre gostei de usá-la de metáfora para minhas experiências. E eu lembro como foram difíceis os dias em que Marie, a gata da vizinha, inventou que gostava mesmo era de dormir na minha cama. Todas as noites, eu me encolhia para que uma ficasse nas minhas pernas e a outra perto da minha barriga. E então não me arriscava a me mexer por horas para evitar qualquer conflito (a Luma nunca entendeu qual era a daquele bicho ali e, sinceramente, eu também não).


É estranho pensar que alguém que esteve comigo nos últimos 17 anos já não está mais. Mas tem uma beleza em saber que ela me fez tão bem mesmo sem poder imaginar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

o aceite da solidão

Tudo que tenho a oferecer é meu vazio, uma solidão constante que a gente já podia vislumbrar naqueles registros em VHS em que eu, miúda de tudo, olhava pro nada numa piscina de bolinhas. Foram os dois poemas ingleses de Borges que me levaram a essa constatação, e eu gosto de verdade desses poemas porque ele fala sobre uma rosa amarela que viu anos antes, ao por-do-sol. Eu mesma ocultaria essa imagem, deixaria somente a flor, para que um amarelo não contaminasse o outro na construção mental. Se ele quis assim, talvez tivesse um porquê. Eu digo que não, mas se uma lembrança de anos antes de eu nascer me fosse oferecida, eu era capaz de aceitar. Por essa suspensão do tempo. O tempo que nunca poderia ser meu. Eu disse - você não sabe, porque disse só pra mim - que eu não escreveria sobre nós, mas essa ideia do tempo que não é o meu me tem fascinado. É, coisas ainda me fascinam. Hoje mesmo eu pensava naquele processo que minhas amigas passaram na adolescência ao descobrir os rejuntes que encobriam as imperfeições do mundo adulto. E eu nunca me assustei porque já não tinha a respeito de adultos as melhores opiniões. Devo ter forjado parte dessa solidão enquanto moldava rejuntes que meus adultos usariam em suas imperfeições; um ou outro molde aposto que guardei para mim. O que me estranha é pensar que aquela menina com cara triste no parque de diversões já era eu e que só eu mesma noto a tristeza que já me habitava. Todo mundo enxerga outras coisas ali, e sente o que melhor convir. A saudade de quando eu era somente dócil, a passagem do tempo e o esvaziamento da juventude. As lembranças de como era tudo fácil, mesmo que não fosse. Foram os dois poemas e também as fitas, além de cartas de amores passados, poemas de amores desfeitos, e planos de amores apodrecidos. Eu queria poder dizer que além da minha solidão também tenho um sorriso sincero e uma mania de datilografar palavras como se andasse carregando um teclado invisível.  Eu conto isso para disfarçar o indisfarçável. De que quando alguém me mirar procurando um sinal honesto do mais puro ou indelével amor, meus olhos estarão fixos em algum ponto - que pode ser imaginário - enquanto penso que nunca nos abandonaremos, minha solidão e eu.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

sem medo ou esperança

Presente
Como a gente escreve sobre algo tão difícil de entender ou como a gente entende algo sem falar sobre a coisa? Ou como a gente pode esboçar pensamentos sobre coisas tão complicadas, cuja essência desconhecemos e cujas consequências parecem ainda nebulosas? Talvez a gente possa se apegar a nossas crenças com um afinco que não sabíamos que tínhamos ou fingir que somos espíritos que pairam para além do bem ou do mal. A questão é que sempre tenho vontade de escrever sobre política e o ano 2016, mas as faces são inúmeras e minha energia é pouca. Tentarei agora (isso é um esforço de análise. Não briguem comigo. Discutam comigo, só não briguem comigo).

Passado
Não são os erros dos protagonistas que caracterizam as tragédias, mas a catarse do público e a inevitabilidade de um desfecho catastrófico. De dezembro de 2015 a meados de 2016, a narrativa política brasileira me mantinha presa em uma tragédia que eu sabia que não seria fácil de escapar. Não escapei. Não escapamos. As únicas surpresas que o processo de impedimento de Dilma Rousseff nos trouxe foram duas: o apoio incondicional de Kátia Abreu à presidenta (até então, a única similaridade que eu via entre as duas era o apoio a projetos desenvolvimentistas cujas vítimas em geral são populações indígenas) e a dedicação de Flávio Dino, governador do Maranhão, em tentar angariar votos contra o impeachment mesmo tendo sido preterido pelo PT em seu estado. Quando o deputado Eduardo Cunha decidiu acatar o pedido de abertura do processo, um ano atrás, perguntaram-me se eu sentia medo do que vinha por aí. “Não”, respondi, “não tenho medo nem esperança, porque, afinal, são sentimentos que estão juntos ao jogar para o futuro coisas que dizem respeito ao presente”. Em 2016, muitos disseram que um projeto político foi derrotado. Eu infelizmente preciso contar que a derrota já tinha sido, e datava de antes de 2014. O que aconteceu de pior em 2016 foi a derrota de valores republicanos e democráticos. E isso tem zero a ver com um ou outro partido.

Presente 
Eu carrego em mim o horror da história. Todos nós carregamos. Eu sempre penso nisso, em como sociedades caminham dia após dia com a memória dos sofrimentos que passaram e fizeram outros passarem. Mas em 2016 a face mais perversa desse nosso legado será ter na memória a saudação que um deputado fez a um torturador convicto naquele lugar que se convencionou chamar de Casa do Povo. Foi ali que doeu. Viver numa sociedade complexa com códigos igualmente complexos de linguagem nos leva a paradoxos em que num regime democrático seja possível defender a supressão da democracia mesma. É do jogo político o uso da retórica. Mas discursos de ódio não são meras “formas de falar”. Discursos de ódio criam realidades sociais que independem de contagem de votos, criam comportamentos xenófobos, racistas, autoritários e, infelizmente, não está restrita ao Brasil essa derrota do Republicanismo e da Democracia. Ao mesmo tempo, chegamos a outro limite do paradoxo: expor aqueles que propagam mensagens das quais discordamos visceralmente não faz suas falas mais fracas, mas sim suas personas mais fortes. Talvez pudéssemos nos abraçar e chorar, tentando entender como o culto à personalidade se tornou um traço mais forte do que todas as checagens de fatos a que as pessoas supostamente tem acesso.

Passado
Mesmo sem medo nem esperança, há uma melancolia sem fim em olhar para os fatos políticos desse ano. Não sabendo o que esperar ou como construir rotas, tenho pensado muito nos velhos tempos. Velhos mesmo. Tipo o século XVIII e o pensamento iluminista. Ou então sobre como temos a possibilidade de criar diálogos e não sabemos como. Não sabemos se antes existiam mais ou menos diálogos possíveis, até. Tenho pensado em como a produção cultural mais importante desse ano na Broadway retoma valores iluministas, ainda que com a marca da contradição daqueles tempos (como se podia brindar à liberdade e defender a escravidão simultaneamente?). Ninguém quer voltar ao passado. Ou, a princípio, ninguém teria por que querer isso, que além de desagradável é humanamente impossível. Nessas de pensar, eu mais me pergunto do que me respondo. Eu me pergunto se quero nesse momento reproduzir palavras de ordem em show de artistas progressistas (não tenho querido). Me pergunto também se determinadas idéias de o que a gente teria que privilegiar não nos fez abrir mão de conhecimentos sobre os quais temos dificuldade de conversar com adversários políticos (tipo, qual a visão da esquerda sobre economia?). 

Presente
Perplexa, me pergunto ainda se quando estou parada só dispendo energia ou se sou capaz de acumulá-la. Com a tragédia conformada (e quando não foi trágica a experiência humana na Terra?), preciso entendê-la independentemente do desfecho que eu tivesse preferido. Sem crença ou temor perante o futuro (já não é o presente indecifrável o bastante?), a Marcha da História caminha, independente de mim, mas comigo nela. Sou parte de algo, mesmo que não queira. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

hiroshima meu amor























Ficha técnica

Título original: Hiroshima Mon Amour
Ano: 1959
Direção: Alain Resnais
Roteiro: Marguerite Duras