segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

a internet está morta, mas passa bem

Eu não sei como vocês tem se sentindo a respeito da internet, mas eu tenho tido sentimentos contraditórios com a rede mundial de computadores. Nenhuma novidade, mas possivelmente uma exacerbação de coisas que já estavam aqui. Esse exagero de sensações me levam para caminhos muito confusos. E um deles é a nostalgia daquela época em que uma parte do mundo estava jogando Pokémon, forçando o emulador a aceitar a alternância entre democracia e anarquia, como se naqueles dias tivéssemos realmente nos divertido por aqui. Outros caminhos podem ser um cansaço tremendo e uma curiosidade constante com o que está acontecendo. Afinal, coisas que eram muito simples de entender e que são da natureza da rede - como arranjos e inovações feitos por muitos e de forma desordenada - vai sendo aos poucos entendido como mais um elemento geopolítico em disputa (sempre foram, mas a discussão sobre neutralidade de rede tem colocado em explícita tensão a internet como entendemos e grandes empresas e países poderosos). Tomando banho, dia desses, eu me dei conta de que a minha vontade de ler textos sobre a internet tem uma origem em comum com meu interesse em ler coisas sociológicas em geral: a internet é só mais um dos mundos onde eu habito.

Desde que eu comecei uma rotina de exercícios na academia, tenho ouvido muitos podcasts. Eu chego a desconfiar que só me matriculei na educação física de adultos para ficar ouvindo esses programas de rádio. Não à toa, um dos meus favoritos atualmente chama-se Reply All e teve um episódio muito intrigante sobre o poder e a rede, chamado "The Prophet" (nesse dia, eu devo ter feito os exercícios da forma mais displicente de todas enquanto prestava atenção à história contada).
"Mas é um pouco estranho culpar a Internet. Tipo, somos nós. Essas pessoas que conhecemos e vemos todos os dias, se comportando como eles querem se comportar sob uma capa obscura. É como um espelho. É nossa responsabilidade.
Isso é o que eu sempre acreditei. Mas e se isso não for verdade? E se a gente descobrisse que a interent é ruim não por conta das pessoas que estão nela, mas por causa de pessoas poderosas que a desenham para ser assim?"
Às vésperas de uma campanha eleitoral que tem de tudo para ser bem uó, a internet é um ambiente de disputa e, a essa altura, não apenas entre visões políticas mas entre pessoas e máquinas que se comportam como pessoas. Não é uma novidade absoluta, e há quem defenda que se preocupar com robôs é muito ano passado: o olhar crítico seria mais bem-vindo à facilidade de comprar espaço nas timelines alheias, com algoritmos direcionando a publicidade política. E, então, sem que a gente percebesse muito bem como, até o termo "notícias falsas" ("fake news") deixou de ser pacificado em seu sentido, porque, afinal de contas, quem espalha notícias falsas não pode ser entendido como espalhador de notícias falsas e muitos creem na péssima máxima de que fins justificam os meios (BREAKING NEWS: não justificam).

O curioso neste momento em que as pessoas discutem notícias falsas por toda parte é pensar que na época em que eu fazia faculdade de História já se desenhava para mim uma percepção de que ter toda a informação do mundo diz muito pouco sobre as coisas. A gente ainda se debate na crença da verdade e, por isso, sofremos. Porque a verdade se pretende única e, ao não ser várias, é totalizante, e, ao totalizar, faz a gente esquecer que um fato é cheio de camadas ou dimensões, muitas delas não alcançáveis. Tem uma dúvida que em algum momento baterá à porta da historiadora e a assombrará por tempos incalculáveis: seria nossa disciplina uma ciência se ela é, ao mesmo tempo, plenamente narrativa? Transpondo a dúvida para outra área: poderia uma notícia ser informativa se ela, ao mesmo tempo, é construída por discursos? Viciada em fazer a crítica das fontes, sinto que essa é a contradição maior em que estamos metidos porque, afinal, nenhuma história ou nenhuma notícia é capaz de dar conta do todo; a boa notícia é que até as ciências ditas exatas sofrem de males semelhantes, porque passam por construções discursivas também. Mas as melhores histórias e as melhores notícias - bem como os melhores estudos científicos - são aquelas que são mais críveis e que de modo quase translúcido apresentam seus métodos, seus caminhos e, até, suas lacunas. Só que funcionar assim é funcionar muito mais devagar do que as notícias ditas URGENTES exigem.
"A lógica de consumir mais notícias - conseguir mais informações e fatos, mais números, mais probabilidades precisas - é uma questão de entretenimento, uma chance de indiretamente sentir-se sabendo e alinhar sua identidade com essa sensação. (...) O gosto por mais notícias vira seu próprio fim. (...) 'Notícias urgentes' não se referem tanto às notícias propriamente mas a uma forma de ser no mundo. Uma vez que a ilusão de notícias "que importam" é dissipada, não há mais nenhuma razão que não seja o entretenimento: eu devo aproveitar o fluxo de conteúdo como um fluxo e deixar ele me levar."
Mas não seriam sentimentos contraditórios sem ter alguma coisa de bom por aqui. Então, um pequeno espaço para respiro:

  • Pra quem gostaria de ter pouco trabalho e saber mais sobre temas relacionados a tecnologia e internet, além dos links que estão por todo o lado neste post, recomendo a newsletter da Ada. Outra recomendação é de um veículo que eu acho que faz um bom trabalho jornalístico na internet, justamente porque tenta aproveitar as especificidades do digital: o Nexo Jornal.
  • A Carol me mandou um link sobre aplicativos de paquera publicado no MIT Technology Review que aponta estudos que dizem que essa forma de se relacionar amorosamente com alguém está mudando a cara da sociedade: ao que tudo indica, houve um grande aumento em casamentos de pessoas de diferentes grupos étnicos e de relações mais estáveis no período estudado (talvez isso mostre que as pessoas estão se relacionando com pessoas diferentes delas e gostando? E talvez a convivência entre grupos diferentes seja um bom caminho para enxergar semelhanças entre os diversos?)
  • Tenho alguns sites favoritos que focam em assuntos como arte e design (eu sou a pessoa mais aleatória do mundo, no sentido de quais são minhas coisas favoritas no mundo), como o Hyperallergic, o Artsy e o AIGA. Mas esses tempos tropecei em links que me fizeram ver como o Medium - a ferramenta do Twitter para textões - tem sido usado para esses conteúdos meio artísticos-meio institucionais: o Stories do MoMA e a revista Zumbido do Selo Sesc.
  • Uma amiga me perguntou outro dia o que meu blog é para mim e eu achei uma pergunta engraçada mas muito boa. Como nunca soube escrever diários secretos - até porque se a gente escreve, o segredo não é mais secreto - e como escrevo blogs desde os 13 anos, ritualisticamente criados e apagados até chegar nesta versão da qual eu sinto menos vergonha do que todas as anteriores (mas sinto um pouco de vergonha, sim), ter blog é praticamente parte de quem eu sou, da forma como eu organizo minha vida e meus pensamentos. Eu gosto de escrever para os outros e até com os outros, porque os comentários que surgem a partir daqui me ajudam a pensar melhor. Arrumando a parte de links daqui, percebi que muitos dos blogs que eu costumava ler na época do Google Reader (jamais perdoarei o Google pelo que ele fez com essa ferramenta, teje registrado) já não existem mais. No natal, dei de presente a outra amiga o livro da Leonor Macedo que surgiu do blog Eneaotil, que nós duas acompanhávamos religiosamente antes mesmo de nos conhecermos. Muita gente mudou muito e desistiu desse formato e muita gente mudou muito e continua escrevendo por aí. Olhando pras abas abertas enquanto escrevo isso, sinto que a blogosfera ainda tem uma vizinhança agradável que não se importa de me ver de moleton andando no corredor do condomínio. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

donas-de-casa pessimistas


Mais um ano em que as pessoas lá de casa desejam os mais sinceros votos de que as festas de todo mundo sejam ok, bem como o ano que chega.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

antes que o verão me alcance








É quase verão de novo. E as cores e os sorrisos do Rio de Janeiro ainda estavam dentro de um rolo plástico, escondido dos olhos da gente. O diminuto espaço também guardava uma quantidade absurda de lembranças, algumas que eu até tinha esquecido. Meu aniversário, Carnaval, outros aniversários, festas juninas. Eu poderia jogar essas fotos aqui e me esquecer delas pra sempre ou para quase sempre e quando eu voltasse a vê-las eu tentaria sentir cheiros, adivinhar a temperatura ambiente, entender o que estava passando na minha vida. Está cada vez mais claro que alcançar isso é impossível e, nessa impossibilidade, eu só arrisco dizer que essas imagens devem contar alguma história que eu ainda não dou conta de ler. Tateio sentidos nos fragmentos, esboço textos desajustados. Tenho um pouco de vergonha, da minha alegria, da minha preguiça, de mostrar e contar essas coisas. Às vezes parece que tudo tem mudado muito rápido mas talvez essas fotografias sejam uma honesta contribuição à crença de que - para além da beleza do mutável ou da instabilidade do contemporâneo - montes de felicidades cotidianas tem conseguido se manter.











quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

era 2 de outubro

Para sair da zona norte, um dos caminhos mais utilizados era a Ponte Cruzeiro do Sul. Desde muito pequena, então, eu via da janela do carro uma estranha construção em que pernas de homens ficavam penduradas entre grades. Eu pensava que os homens que escolhiam ficar nas janelas eram como eu, que assistia à televisão de ponta-cabeça, me balançava perigosamente em corrimãos, escalava as grades do portão da casa da vó. Demorou alguns anos pra eu entender que naquele prédio homens viviam mesmo era amontoados em espaços minúsculos, e levou ainda mais tempo para eu descobrir que um evento de quando eu tinha dois anos de idade provavelmente assombrava uma parcela dos donos daquelas pernas que eu via da avenida. O massacre tinha sido em 2 de outubro de 1992.

O Carandiru foi ao chão, virou parque mas abriga um memorial. O livro de Dráuzio Varella foi feito filme por Hector Babenco. "Diário de um detento" é um marco na nossa música e a obra de Sabotage, que estrelou o filme, recebeu uma homenagem fortíssima há mais ou menos um ano. Culturalmente, a memória resiste. Em termos de justiça, é doloroso lembrar: a soma dos 111 mortos - imagina-se que foi mais do que isso - viu os partícipes do massacre serem amplamente inocentados.


Ano que vem termina em 8. Jornais, sites, revistas, eventos acadêmicos vão falar de 1968. Vão falar da decepção socialista na Tchecoslováquia, da revolução moral francesa - menções a pílula anticoncepcional e à minissaia compõem o bingo - e com quase certeza absoluta haverá inúmeras discussões sobre o endurecimento do regime ditatorial no Brasil com a assinatura do Ato Institucional Número Cinco. Pouca gente vai lembrar de Tlatelolco, na Cidade do México, palco de uma ação militar contra estudantes em greve. O número de vítimas nunca foi consensual, variando de dezenas a centenas. O massacre foi em 2 de outubro de 1968.

O assassinato em praça pública de pessoas em um ato contestatório contra o governo mexicano foi documentado por Elena Poniatowska no livro La noche de Tlatelolco: Testimonios de historia oral. Passei a maior parte da minha viagem ao país lendo esses relatos perturbadores. O grande mérito da jornalista é apresentar depoimentos diversos coletados nos dois anos que se seguiram ao evento. O livro foi publicado pela primeira vez em 1971. Muitos dos depoimentos são contraditórios entre si e assim Poniatowska deixa claro que não há verdade absoluta. Por isso, apesar de eu sentir vontade de grifar algumas passagens, me contive. Não queria validar mais ou menos o que é documento histórico e que passa pela subjetividade de um monte de gente (que se posiciona sobre luta sindical, interesses estudantis, o papel da imprensa e as escolhas de polícia e governo). Queria que as palavras das vítimas tivessem um peso absoluto, em si mesmas, que fossem igualmente importantes e incomparáveis.


Conforme fui me aproximando dos relatos que falavam especificamente do dia, mais me lembrava do 2 de outubro paulistano. Decidi então ir a Tlatelolco ver a Praça das Três Culturas que tem esse nome porque o espaço é disputado por ruínas pré-colombianas, uma igreja da época da colonização e um conjunto habitacional no entorno. Famílias viam as ruínas, enquanto eu sentia mal-estar ao imaginar aquilo que os textos me contavam. Um grande grupo de jovens escolheu a praça para assembleia em meio a uma greve estudantil. Na semana anterior, em manifestação em favor da autonomia universitária, inúmeros estudantes tomaram a praça central da cidade, o Zócalo. Em Tlatelolco, homens de luvas brancas alvejaram o público, indiscriminadamente. O grupo de ação militar tinha o nome de Olympia, porque o país estava prestes a ser sede olímpica. A morte e a prisão de manifestantes foram caminhos para impor a ordem necessária para que um evento de magnitude mundial acontecesse sem ruídos. A memória das Olimpíadas de 1968 eu encontrei em loja de museu. A dos covardemente assassinados só vi no spray de anônimos pixadores.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

excertos do meu diário

Nunca pensei que diários de viagem seria um gênero literário que me chamaria a atenção nem sequer imaginava que um dia eu, a senhora displicência, daria conta de escrever por tanto tempo em uma viagem. Acho que o primeiro diário de viagem que eu gostei de verdade de ler foi o Kimland, da Juliana Cunha, que já não se encontra para comprar (quem leu leu, quem não leu pode me pedir emprestado que eu empresto). Depois, rabisquei todo o Viajes - De la Amazonia a las Malvinas da Beatriz Sarlo. E, finalmente, entrei em uma fixação ao ler Diário de Oaxaca, do Oliver Sacks, e falei dele para cada pessoa que encontrei na época, e depois também, quando estava em Oaxaca e cercanias.

Fiquei em dúvida se trazia para cá as anotações que fiz nas três semanas que andei pelo México mas algumas amigas pediram que eu compartilhasse minhas impressões por aqui. Escrevo em pequenas notas porque me falta paciência para escrever uma narrativa coesa. Algumas anotações ficaram só no caderno, para fingirmos que esse conceito tão recente que é a "privacidade" significa alguma coisa.
No Museu Etnobotânico de Oaxaca - uma das grandes razões para eu ter colocado a cidade no meu trajeto - um cartaz dizia que servidor público pode falar em sua língua indígena. Lembrei do recente assassinato de índios não-contactados no Brasil, e de toda ideia que se tem no meu país de que indígenas não são sujeitos contemporâneos. É uma pena que o direito de muitos povos dependa da ignorância de um (nesse sentido, o Estado nacional brasileiro segue sendo uma metrópole e tanto).

No Museu de Filatelia de Oaxaca, eles tem uma coleção de cartas de Frida Kahlo, mas não é possível ler por completo cada uma delas, já que estão escritas na frente e no verso. Em uma das que abri, escreveu Frida a seu médico (ela o chamava de "queridismo doctorcito") sobre o aborto que teve em Detroit. Escrevia um pouco irritada porque o médico - o que fez o procedimento - falou algo sobre ter seu próprio tempo. Ela se perguntava se ele dizia isso a todas as mulheres que abortavam ou se pensava que ela realmente poderia ter um filho nas condições de saúde em que se encontrava. Dias depois, uma exposição em um centro cultural da cidade tematizava o aborto a partir de ex-votos de católicas que agradeciam a seus santos de devoção pela possibilidade de passar pelo procedimento de interrupção da gravidez. Como o México é uma federação composta por estados unidos, cada um tem uma legislação própria, que vai de décadas de prisão para mulheres a legalização até a 12ª semana.

As línguas me fascinam. A possibilidade de transmissão de comunicação verbal de pais para filhos e a elaboração comum de textos escritos dentro de um mesmo código. Me fascina também o conhecimento de outras línguas, a compreensão de sons não-habituais a nossos ouvidos. E então ver as "estelas" de Monte Albán traduzidas, aquelas inscrições zapotecas cravadas em pedras enormes me deixam atônita talvez mais do que imaginar como se rolaram pedras tão grandes monte acima, ou de ter lido que uma das estelas representava a elite do lugar, em que 5 de suas 6 figuras eram femininas.

Quando se viaja muito sozinha, vão se criando idiossincrasias. Uma delas é siga o barulho. Quarta-feira, em Oaxaca, segui o som de fanfarra e rojões e cheguei a uma festa que tomava a Avenida de la Independéncia, para irritação dos motoristas. Outra parte da festa estava no quintal da Igreja de la Soledad. Ali, jovens equilibravam uma grande bola incrustada em um grande pau em que se lia "San Sebastián Martír". Outros jovens dançavam e a fanfarra parecia ter começado uma canção conhecida deles. Alguns casais dançavam, aos saltos. Muitas das pessoas usavam camisas verdes. Ao meu lado, um carrinho vendia milho. Uma mulher, com camisa verde, aproximou-se para comprar uma espiga e eu aproveitei para ler o que estava escrito em letras brancas no seu peito: "Burocratas unidos". Não me ajudou a entender o propósito da festa mas achei um nome bem engraçado para um conjunto de festeiros. Dias depois, outra calenda - descobri que é assim que se chamam essas festas - com uma bola escrita "Sindicato do Poder Judiciário" cruzou meu caminho e achei igualmente engraçado.

Há que ser muito burro ou mal-intencionado para crer que existem culturas puras ou que faça algum sentindo, nesse extremo ocidente que é o continente americano, defender os pilares da sociedade ocidental. No mercado em Oaxaca, doces em forma de caveira dividem espaço na mesma prateleira com velas que tem a foto de João Paulo II. No dia seguinte à minha chegada à Cidade do México, um desfile de Día de Muertos tomaria conta da região central. S. me contou, enquanto me levava ao hostel, que dois anos atrás esse desfile não existia, mas que por ter sido representado em um filme recente de James Bond, adotaram a "tradição" criada por roteiristas de 007.

Ao lado da árvore gigante de El Tule - um Ahuehuete ou Sabino de mais de dois mil anos - um jardim, que ocupa área semelhante com rosas, margaridas, uma fonte, figuras recortadas em arbustos. O jardim é o justo oposto da árvore: sinal do controle e da racionalização do ser humano sobre a natureza.

Descobri que Porfirio Díaz, o presidente mexicano destituído pela Revolução de 1910, nasceu em Oaxaca. Díaz foi presidente do país por 35 anos e talvez uma das inúmeras figuras que inspirou Caetano Veloso a escrever os versos "será que nunca faremos senão confirmar / a incompetência da América católica / que sempre precisa de ridículos tiranos" na música Podres Poderes. Chama-se também Porfirio Díaz o personagem que dá o golpe de Estado em Terra em transe. Acontece que cada vez que passo por algum lugar da cidade que leva o nome de Díaz vem, do fundo da minha cabeça, a voz de Paulo Autran gritando "APRENDERÃO!". Glauber Rocha colonizou meu pensamento. [Depois que escrevi isso no diário, achei impróprio, porque Glauber passou sua obra toda tentando descolonizar pensamentos. Também achei curioso que Oaxaca foi a província onde nasceu Benito Juárez, o presidente mais popular da história mexicana]

N., um dos donos do hostel, falou sobre algo que havia caído com o terremoto, mas não entendi onde. Ele usou a palavra "panteón", o que me remeteu a uma construção greco-romana em homenagem a heróis. Como não compreendi, perguntei onde ficava, porque ainda tinha um dia inteiro na cidade. Ele me perguntou se eu sabia andar de bicicleta e em pouco tempo estávamos circulando pelas ruas dali. Entramos em um cemitério - era isso que significava, afinal, a palavra "panteón" - e seguimos em cima da bicicleta, olhando as lápides, algumas delas danificadas pelo tremor de dois meses antes.
Fui para a fronteira com a Guatemala, saindo de San Cristóbal de las Casas, em um grupo cheio de senhoras. Dessas meio idosas que viajam juntas e falam muitas bobagens. Uma delas me apelidou de "Chica de Ipanema", e eu só não a corrigi como sendo "Chica de la Subprefeitura de Santana" porque ia dar muito trabalho explicar e não seria nada sonoro. Passaram a viagem toda conversando e alguns assuntos até bastante interessantes, como a permanência de um mesmo partido há tantas décadas no poder. Em algum momento, elas começaram a falar sobre uma pomada feita à base de maconha, que eu descobri na Cidade do México que estava até bem na moda, sendo vendida ilegalmente nos trens do metrô com paracetamol. Uma disse a outra que ela era bem entendida nessas coisas de drogas, e a primeira respondeu que sim, porque tinha aprendido com a novela. E desatou a contar como descobriu que seu vizinho era traficante porque tinha os mesmos trejeitos que o personagem da televisão...

A maior parte do tempo que passei em Chiapas choveu. Na quarta-feira, ficamos na cama, eu, E. e os sobrinhos dela, assistindo a um filme sobre lendas mexicanas. A lenda de La Llorona apresentou a morte dos filhos da mulher como uma fatalidade, ao que E. interrompeu para contar que a lenda mesmo é que uma mulher, ao descobrir que foi traída pelo marido, afoga seus dois filhos no rio. Ao perceber o que tinha feito, tira a própria vida no mesmo rio e passa a vagar pelo mundo, chorando e gritando por seus filhos. Não satisfeita em me explicar melhor os meandros, E. me contou que dias antes um primo dela de um pueblo próximo, estava em casa e ouviu o choro da Llorona. Enviou para ela um áudio do choro e contou que os vizinhos tinham escutado também, mas ninguém teve coragem de ir à rua naquele momento. Apesar de não querer acreditar, meus pêlos do braço se arrepiaram quase imediatamente.

No ano em que conheci meus amigos mexicanos, estava na moda uma música chamada Yo no sé mañana, do nicaraguense Luis Enrique. Em San Cristóbal, escutei-a tocar em dois lugares muito diferentes e fiquei lembrando como na época em que a escutei pela primeira vez "não saber o amanhã" era fonte de grandes angústias. Cada vez que em uma festa ou em casa alguém a escutava, eu ficava um pouco desesperada porque não tinha respostas sobre se amanhã estaríamos juntos ou se amanhã se acabaria o mundo. Anos depois, a música remetia a uma boa nostalgia e a um certo alívio sobre, exatamente, não saber o amanhã. Passei a encará-la como uma versão da frase latina "Carpe diem", só que melhor porque dançável ao ritmo de salsa.

Visitando ruínas arqueológicas, lembrei-me do último trabalho de campo que fiz na faculdade. Um grupo de estudantes de História que levou 24 horas para chegar ao extremo sul do Brasil, na fronteira com a Argentina e muito próximo ao Paraguai. Ao longo de uma semana, percorremos diversos sítios que foram missões jesuíticas, espaços onde a Companhia de Jesus buscava angariar almas indígenas para seu dia do juízo. Essa relação entre catequizadores e indígenas por muitas vezes chegou a ser  também uma tensão entre religiosos e colonos que não disputavam exatamente as almas, mas os braços para trabalho escravo. Para além dos textos que deixaram na época da América portuguesa, os pedaços de pedras que restaram naquela região são indícios dessa história. Na última ruína que visitamos lá em 2012, ovelhas pastavam e o cemitério ao lado do que tinha sido a igreja tinha flores recentes. Ao debatermos isso, recordo de um ou dois colegas que tiveram a pachorra de sugerir que o cemitério atual e os corpos que morreram depois do período que nos interessava deveriam ser transferidos porque atrapalhavam os trabalhos arqueológicos. Até hoje desacredito dessa proposta aventada, tamanha arrogância que transmitia. Além da ignorância sobre o papel de alguma maneira sagrada dos mortos em relação a seus vivos e um possível desrespeito com as raízes guarani que ali existem, penso nessa ideia como um estranho caso de investigação histórica que relevava a passagem do tempo naquele espaço. (Vendo os montes de turistas que visitam construções zapotecas, mexicas, maias, me pergunto que serventia tem para as comunidades cercanas essas escavações arqueológicas. Para o Estado mexicano serve para preencher espaços nas notas de peso e para ganhá-las com os ingressos. Volto para casa com essa dúvida sobre os usos culturais da cultura ali)

No mesmo dia em que fui às Pirâmides de Teotihuacán, decidi conhecer a Basílica e Guadalupe (dica da Lari que me passou um link que explicava como fazer tudo isso e chegar destruída no hostel depois). A história da aparição da Virgem de Guadalupe era das minhas favoritas na mitologia que me formou. A bem da verdade, as histórias de aparições da santa eram um bom conjunto porque já não falavam de martírio. De alguma forma, era o triunfo da misericórdia, em que uma mulher surgia para acalentar seus filhos (no caso da Virgem de Guadalupe há uma clara associação com a Mãe Terra, ou com uma deidade similar à Pacha Mama dos povos andinos), ao invés de narrativas de irmãos que se matam, pessoas transformadas em estátuas de sal, deus testando crença e fidelidade de alguém pedindo sacrifício de seu filho.

Viajando sozinha, me perco de uma a duas vezes por dia. No dia 31, acordei, tomei café da manhã, lavei umas roupas e decidi ir ao Museu Frida Kahlo. Estudei mapas, saí do hostel, me perdi uma vez. Retomei o caminho certo, cheguei na frente da antiga casa da artista e duas filas em sentidos opostos estavam formadas: uma com quem comprou os ingressos pela internet e outra para os que como eu só chegaram. A esquina estava tomada de vans de turismo. Por ter pouca altura também tenho pouca paciência. Fiz contas rápidas e percebi que levaria pelo menos uma hora para entrar e achei que a espera e o ingresso não compensavam por um lugar lotado de gente. Fui ao mercado para almoçar e decidir o que fazer e lembrei que por te me perdido tinha descoberto onde fica a Cineteca Nacional de México. Ao perceber que sei menos de cinema mexicano do que de Frida Kahlo, decidi ver uma produção Canadá-México chamada Mis noches harán eco. E ainda estou maravilhada.

No dia 3 de novembro, fui ao Museu de Arte Moderna, que esteve fechado nos dias 1 e 2 de novembro pelo Día de Muertos. Na exposição de fotografias de Garry Winogrand, uma mulher, voluntária do museu, perguntou se podia me acompanhar naquela sala e fazer um exercício de olhar algumas imagens. Na primeira que escolhi, se via em primeiro plano uma jovem atravessando uma rua que supunhamos ser em Nova York nos anos 1960. Fui descrevendo a cena que tinha diante de mim para minha companheira de exposição até chegar à percepção de que a imagem me intrigava porque eu podia me colocar na posição do fotógrafo - querendo observar e guardar imagens desses dias, de tantos outros, das pessoas que amo e daquelas que nem conheço - e também na posição da mulher fotografada - andando há dias sozinha por caminhos citadinos.
Chegando de avião a São Paulo, de madrugada, fiquei observando como ia baixando o avião e como cidades iluminadas à noite compunham uma espécie de tecido rendado com figuras geométricas de tons amarelo-alaranjados. Os vulcões, as montanhas, deixei para trás e minhas paisagens voltaram a ser serras e prédios. Ou, para ser sincera, as paredes do meu quarto, a primeira coisa que arrumei quando cheguei em casa.