o infinito possível


Eram minhas últimas férias da escola. Meu tio me chamou para acampar na serra, lugar que só poderíamos conhecer na alta temporada se dormíssemos em barracas à margem de um córrego. Ao contrário do verão, quando acampamos por uma semana em uma barraca que parecia uma cabana, em que emulamos uma cozinha, uma sala, um quarto para cada um, dessa vez cada qual ficou em seu iglu. A imagem do iglu não é à toa. Na primeira noite, esquecemos de colocar isolamento térmico no chão e, ao que me consta, nenhum dos dois conseguiu dormir (ele me perguntou inúmeras vezes no dia seguinte se eu tinha conseguido e, constrangida de falar a verdade - que eu cheguei a colocar todas as minhas meias e entrei na própria mochila para ver se aliviava -, disse que dormi, sim, até muito bem).


Naquela primeira noite, fomos para a cidade jantar e, na volta, acompanhávamos a brusca queda de 10ºC na temperatura. Eu era menor de idade e, mesmo que pudesse, eu não tinha ânimo algum para a noitada (pouco mudou). Ele pegou uma estrada e lembro de pararmos perto de um lago. Muito pouco se via, na ausência de iluminação na rota. Subimos a serra. Lá em cima, lembro de termos saído do carro e de ficarmos parados olhando para um suposto nada. Lembro que ele me disse que a gente precisa olhar pro infinito, que isso faz bem pros olhos. Ele disse que em São Paulo não dá pra fazer isso, que em São Paulo tudo tá perto demais. Sempre que viajo, então, tento olhar pro infinito.



Só que nessas férias, tirando uma passagem rápida pelo interior, não viajei. Peguei então meu último dia de folga e fui ao topo do Edifício Martinelli. Uma mirada pelo amontoado de prédios criando um horizonte que liberta dos sufocamentos cotidianos. A busca do infinito possível em meio a tanta imediatez.




oi, sumida

Fazer uma lista de textos que escrevi pela internet é um jeito de fingir que sempre estive por aqui. Inventei na minha cabeça umas demandas que diriam ter a ver com a vida adulta e inventei também que queria começar o mestrado nessa época. Por isso escrevi pouco no blog e fotografei menos ainda. Em mim, parece que a única constante é minha vontade de mudar de linguagens e, quando uma emerge desbancando outras, é mais para me salvar do que para me prender. (Tô com uma mania de ver positivamente meus processos de envelhecimento, mas, se bobear, essa autoconsciência tem sim a ver com a idade e atualmente mais ajuda que atrapalha). Naquela velha tradição de fazer um clipping de mim mesma, trago links de coisas que fiz por aí, pra fingir que não estou tão sumida.


A Capitolina lançou o segundo volume do livro essa semana e, embora minha foto esteja no final do livro, dessa vez só assisti ao processo. Ainda não li, mas folheei a edição de Carol e de novo me apaixonei. Rola um fetiche pelo objeto, não nego. Pra não dizer que fiquei só olhando, nos últimos seis meses escrevi uma ou outra coisa e fiz ensaios visuais pra publicação.

  • O Brasil no cinema gringo: escrevi com a Thaís sobre personagens brasileiros interpretados por atores de outras nacionalidades e como se dá a representação do país em Hollywood.
  • Uma bateria nota mil: bem pertinho do Carnaval, tive a oportunidade de cobrir o ensaio técnico da X-9 Paulistana no sambódromo. O foco foi pras mulheres que tocam na bateria, a Pulsação Nota 1000.
  • Atrás da linha imaginária: outro ensaio fotográfico, agora acompanhando o Tsunami, um time de rúgbi que me ensinou mais ou menos as regras de um esporte em que a bola é achatada e só pode ser lançada pra trás.
  • A celebração da morte: a morte como tabu me interessa muito porque é um assunto com o qual tenho dificuldade de lidar. Acabei caindo em referências muito loucas sobre o assunto, mas decid contar com a entrevista do Saul, meu amigo mexicano, que me contou sobre as celebrações da festa do Dia dos Mortos no seu país. Cheguei a estes lugares na internet: Vamos Falar Sobre o Luto, esta tag do New York Times e este artigo sobre bilhetes suicidas como formas literárias.
  • Quanto custam os megaeventos esportivos?: eu ser doida por eventos como Olimpíadas não elimina a perversidade na forma como eles são impostos às populações locais. Esse texto tinha o intuito de mostrar o que fica por trás das arenas majestosas e dos discursos de vitória e superação pessoais desses megaeventos.
  • Gabinete de curiosidades: o tema do mês era "curiosidade" e eu pensei o que eu colecionaria se tivesse que criar meu próprio "pré-museu"



Conheço Marianna há anos por causa dos nossos blogs pessoais de adolescência. Até que todo mundo cresceu e Mari me convidou para escrever na revista que apresentaria como trabalho de conclusão de curso: a Esquina. Como eu pessoalmente adoro fazer participação em TCCs (como no de Lucas, Stephanie e Vinícius). Meu texto era sobre as esquinas de São Paulo que são mais importantes para mim, mas a publicação está preciosíssima como um todo (tive que ler inteira, morri de orgulho de fazer parte disso).


Eu, Seane e Lucas ficamos tão amigos que de repente estávamos contando fatos das nossas vidas um para os outros comparando com séries de tv e Netflix. As newsletters, esse formato que entrega na sua caixa de e-mail notícias e promoções diárias, estavam enchendo nossas caixas de entrada e nos perguntamos "por que não nos expomos também?". Assim, criamos a newsletter No episódio anterior e fingimos que assistimos compulsivamente a séries para um bem maior: produzir textos meio literários meio biográficos pra uma audiência anônima. Selecionei aqui os meus textos já enviados:


Por fim, escrevi para O Brasil Que Deu Certo sobre o samba e a vontade de dividir a mesa de bar com Elizeth Cardoso e também sobre as grandes derrotas do esporte brasileiro porque colecionar louros é fácil, mas colecionar derrotas memoráveis nos coloca em uma nova perspectiva. O ineditismo desse texto é que os meninos me chamaram para fazer um vídeo sobre o assunto, ocasião rara porque eu me acho péssima em fotos que se mexem e tem o som da minha voz.

winona essencial

Ter terminado Stranger Things só me motivou a falar de uma das pessoas sobre as quais mais gosto de falar: Winona Ryder. Aprendi com ela que ninguém está muito bem e que ninguém é muito normal. Seja porque esse mundo foi feito mais para Gwyneths  do que para Winonas, ou porque os 30 são uma fase difícil para muitas mulheres, ou simplesmente porque ela se parece demais com seu personagem literário favorito (Holden Caulfield, de O apanhador no campo de centeio). Mas o mais importante é que em geral aprendi essas coisas vendo bons filmes com ela e com um certo silêncio que se criou em sua carreira. Aqui está minha seleção de ninguém-está-muito-bem-ninguém-é-muito-normal estrelando Winona Ryder.


Beetlejuice é o bom e velho Os fantasmas se divertem, em português. Na verdade, a tradução soa meio estranha, porque praticamente nenhum personagem se diverte em Beetlejuice na maior parte do tempo. O personagem de Winona Ryder é Lydia Deetz, uma adolescente "estranha e incomum", que consegue se comunicar com os fantasmas que habitam sua nova casa. É um filme daqueles tempos em que Tim Burton estava no seu auge e que tem coisas que se repetirão em outras obras depois, como o fato de os mortos serem mais simples e honestos que os vivos (alguém falou sobre A Noiva Cadáver aqui?).


Cher interpreta a mãe de Winona Ryder e Christina Ricci. É tanta gente esquisita junta constituindo família que eu não poderia ser mais feliz. Winona interpreta Charlotte, uma adolescente de 15 anos de idade que narra sua história nos anos 1960 e que tem uma moral de católica fervorosa, o que a coloca em tensão constante com a sua mãe solteira (Cher). Em português o filme ficou com o nome de Minha mãe é uma sereia e é o primeiro papel no cinema de Christina Ricci, anos antes de ser a Vandinha da Família Addams. Sua personagem passa a maior parte do tempo preocupada com o que realmente importa: apinéia na banheira.


Eu provavelmente sou muito condescendente com Winona e por isso coloquei o primeiro filme digirido por Ben Stiller aqui. Caindo na real apresenta um grupo de amigos recém-saídos da faculdade sem a menor ideia de qual é o passo seguinte na vida. É tipo o que a gente escuta de todos os amigos que temos, só que com pessoas que tinham 23 anos em 1994.


Assistir a Garota, Interrompida foi um dos ritos de passagem da adolescência. Questões que até então ficavam restritas às conversas com amigas de colégio, apareciam em várias personagens. É possivelmente também um filme de rito de passagem para a própria Winona, que faz o papel de Susanna Kaysen, uma jovem de 18 anos com tendências suicidas. Anos mais tarde descobri que não só Winona Ryder e Angelina Jolie compartilhavam o protagonismo no filme, como entre os papéis de apoio estava Elisabeth Moss, a Peggy de Mad Men. Apesar de ter feitos vários outros filmes depois desse, parece que só agora Winona vai voltando ao velho destaque. Sinceramente? Era o que eu mais sentia falta dos anos 1990.

we used to play outside when we were young


A janela do quarto é enorme e demanda uma bela cortina. Alguns aluguéis já foram pagos e nenhum tecido inibe a entrada devastadora da luz no ambiente. Descobri que comprando uma máscara para os olhos já resolvia grande parte do problema. Além disso, quando for sexta à noite de um feriado nacional e todas as torneiras de casa resolverem se rebelar e seus amigos afirmarem que chegam em meia hora, a única solução real é colocar tutoriais de uso das ferramentas hidráulicas coladas nas paredes do banheiro. A gente se vira como pode.
















pequeno inventário dos que ficaram

GRETA
Greta estava sentada a algumas mesas de distância no café da manhã mas se levantou para se sentar comigo. Disse que não gostava de fazer refeições sozinha, mas reparei que já tinha terminado sua comida. Foi seu jeito de disfarçar que queria sentar ali e conversar um pouco. Apresentou-se e eu disse que me chamava Bárbara. "Em alemão existe esse nome", disse ela. "Sim, em muitas línguas". Ela sorriu dizendo ser um nome global. Se nos conhecêssemos há pelo menos meia hora mais, eu teria dito que meu nome faz referência a todos os que não estiveram no centro do Império Romano. Seus antecessores, provavelmente. Ela elogiou meu cabelo e pediu para eu não cortá-lo; ainda não o cortei, Greta. Disse que aproveitava as férias para ir a Londres. Sentia-se mais livre na Inglaterra, ao contrário do que a faziam sentir os costumes germânicos. Lembrei-me da artista plástica que conheci em Berlim, que migrou do Reino Unido, porque sentia que ali no continente, na Alemanha mais especificamente, era mais fácil ser livre, longe dos costumes ingleses. A liberdade afinal são os outros. 


GERMAN
Paguei-lhe uma cerveja e passamos horas conversando. Tínhamos em comum lembranças de um mesmo lugar que já chamamos de casa. Ele me trazia os chiados da y-griega que eu insisto em emular. Eu levava histórias de um território que ele não via fazia muitos anos. Ele me disse de Alejandra Pizarnik, mais uma poeta suicida para minha coleção mental. (Ele não soube dessa coleção). Perguntou meu signo e constatou que piscinianos e aquarianos rendem mesmo grandes encontros. Apeguei-me a sua mística. Minutos antes de começarmos a conversar, eu vivenciava uma chuva de meteoros. 


MARIAS
Maruxa e Coralia morreram antes que eu nascesse e uma estátua das duas, coloridíssima, preenche o parque de la Alameda em Santiago de Compostela. Pelo que sei, saiam as irmãs Fandiño às duas da tarde, todos os dias, a caminhar pela cidade. O contraste das cores com o tempo nublado que encontrei ali era também nas décadas anteriores resistência à opacidade hostil da ditadura franquista na Espanha. Olho suas figuras animadas e olho também os transeuntes a se animar com suas imagens. Não sei se sabem, mas estão diante da representação de mulheres destruídas pela Guerra Civil, com irmãos mortos, familiares torturados, elas mesmas expostas nuas na juventude em praça pública. Não sei se sabem os que olham, e, se sabem, não sei por que sorriem.


MIGUEL
Miguel tinha cabelos grisalhos, a casa emprestada do irmão de um amigo, um telefonema da mãe naquela noite e o beijo mais macio que já beijei. Miguel me quis ainda na praça e eu não soube o que eu mesma queria, por isso segui até o momento em que me decidi. Eu queria ter ficado, mas ainda me abatia uma tristeza dos fatos recentes. Miguel devia saber que eu partiria como um argonauta e consigo imaginá-lo com o vinho e o queijo que deixamos à varanda rememorando em seu sotaque lusitano os versos que dizem "toda a gente que eu conheci e que fala comigo / nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida".