segunda-feira, 19 de junho de 2017

o semestre de três anos

A ideia de começar a pós-graduação parece sempre boa. Estudar mais uma coisa que a gente já sabe que gosta. O esquisito é que tem pouca matéria pra fazer e que quando eu tô de férias das matérias eu realmente não estou de férias da pesquisa. A sensação, afinal de contas, é que a pesquisa é mais uma das dimensões da vida e que semestres agora duram cerca de três anos. O mais esquisito é que eu não sofro muito. Só quando preciso escrever um texto do zero. Ou quando preciso apresentar primeiros resultados. Às vezes eu esqueço de comer e adio demais meu sono. Mas no dia-a-dia não tá ruim. Tem até umas coisas que me divertem.

A mais recente dessas coisas foi um seminário que tive que preparar para a disciplina que estava fazendo. Como eu acho que a vida é curta e que a gente só vive uma vez, aproveitei o seminário para falar de um assunto que eu estava desde agosto do ano passado querendo pensar sobre: a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E o caminho que percorri foi através do livro A semana sem fim, de Frederico Coelho. O livro faz parte de uma coleção que se propõe a analisar a Semana de Arte Moderna de 1922 por conta da celebração de 90 anos do evento. Ele faz um percurso por décadas e lança mão de ideias como a "tradição da ruptura" de Octavio Paz e a "invenção da tradição" de Eric Hobsbawn. Não era evidente - e essa é uma perspectiva interessante da obra de Coelho - que a memória do evento se cristalizaria da forma como foi cristalizada. Ele investiga por que a escolha do ano de 1922, por que São Paulo, por que algumas figuras receberam mais destaques do que outras e como o termo "modernismo" se impôs sobre o termo "futurismo". Mas o que me interessa mesmo no livro é quando o autor trata da perpetuação ou da recuperação da memória de Mário e de Oswald de Andrade.

A relação entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade não foi sempre de proximidade. Mas a memória da Semana de Arte Moderna transformou os dois - em momentos e por razões diferentes - nos símbolos maiores do modernismo iniciado em São Paulo. Enquanto Manuel Bandeira que apresentou em um dos dias o poema Os Sapos - crítica clara aos parnasianos - pedia distanciamento da discussão sobre se estava vivo ou não o modernismo em 1942, dois processos simultâneos aconteciam na época. 

A criação da Universidade de São Paulo em 1934 e a organização de um grupo de intelectuais em torno da fundação da Revista Clima que publicou críticas culturais entre 1941 e 1944, favoreceu a criação de uma fortuna crítica sobre o movimento modernista. Antonio Candido, que era casado com a filósofa e crítica Gilda de Mello e Souza, que por sua vez tinha parentesco com Mário de Andrade, foi o principal incentivador dessa postura favorável ao modernismo pelo caminho da academia. Nesse período, o próprio Mário de Andrade questionava os limites do movimento, enquanto Candido traçava o período de 1922 a 1945 como o período modernista. O artigo publicado na Revista Clima virou capítulo do livro Literatura e Sociedade. Frederico Coelho questiona o marco temporal escolhido por Candido, já que o ano final é o de morte de Mário de Andrade, enquanto o ano inicial é o da Semana e de publicação de Pauliceia desvairada. O marco temporal seria, portanto, focado na figura de Mário. Para Candido, a literatura brasileira no século XX seria divida em três períodos: 1880 a 1922 (pós-romântica; algo que não a qualifica em si, mas em relação ao que veio antes); 1922 a 1945 e de 1945 em diante. Dessa forma, Candido colabora na transformação do modernismo em cânone na academia, coisa que terá reflexo em outros momentos da vida pública brasileira. Além da academia, espaços oficiais passavam a reconhecer o modernismo a partir do marco de 1922 mesmo quando o campo artístico ainda não tinha pacificada essa questão. Em 1952, destaca Coelho, Getúlio Vargas celebra o modernismo e suas forças revolucionárias em sua mensagem ao Congresso Nacional. O fato é destacável visto que Getúlio foi vencedor de uma revolução que derrotou politicamente parte da elite cafeeira que apoiou a Semana de Arte Moderna trinta anos antes. 

Assim, se Mário de Andrade foi abraçado pela universidade seja pelos textos de crítica literária, de seus vínculos institucionais (basta lembrar de seu anteprojeto pro SPHAN no Estado Novo de Vargas) seja pela recepção em 1968 do seu acervo pessoal pelo Instituto de Estudos Brasileiros (criado seis anos antes por um também participante da Semana, Sérgio Buarque de Hollanda), a consagração de Oswald veio um pouco mais tarde. Foi nos anos 1960 e 1970 que a memória de Oswald se consolidou, através de processos culturais bastante interessantes. A obra do escritor passou a ser revisitada, tanto em seus textos de teatro (como O rei da vela, montado em 1967 por José Celso Martinez) como em seus textos combativos estética e politicamente. Assim, o tropicalismo, movimento tão complexo quanto o modernismo do começo do século, e que dialoga com a percepção do nacional em um contexto de modernização, transforma a ideia de "Antropofagia" oswaldiana em sinônimo de "Tropicália".

Esse é um ponto fundamental para mim. No texto Kafka y sus precursores, Jorge Luis Borges questiona a ideia de precursores em literatura. Diz: 
"No vocabulário crítico, a palavra precursor é indispensável, mas teríamos que purificá-la de toda conotação polêmica ou rivalidade. O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro. Nessa correlação nada importa a identidade ou a pluralidade dos homens." 
A partir dessa ideia de Borges, os modernistas de 1922 não seriam em si precursores dos tropicalistas de 1967-1968. São os tropicalistas que colocam na ordem do dia o modernismo de 1922, e que determinam ali sua tradição.

Ao final do livro, Frederico Coelho adverte a incompletude da Semana de 1922. É a incompletude a sua força de nos fazer pensar sobre a modernidade brasileira que carregamos nos nossos imaginários (ajudada obviamente por livros didáticos, datas comemorativas, efemérides celebradas pelos jornais e órgãos de cultura e retomadas artisticamente ao longo do tempo). Por fim, quando Coelho cita Waly Salomão para dizer que a semana não se esgotou e chega a imaginar o cenário de 2022 quando se completará o centenário do evento, pensei em analisar a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 para buscar continuidades entre os discursos modernistas e tropicalistas em um evento colossal. Os diretores artísticos da cerimônia foram os cineastas Fernando Meirelles, Daniela Thomas e Andrucha Waddignton. Meirelles, sobre os gastos mais modestos do que os de outras edições, disse
"Não temos os números oficiais do preço das cerimônias nem de Londres nem de Pequim, mas as pessoas do mercado que lidam com isso têm estimativas. Não é um drama, porque não faz sentido usar um orçamento espalhafatoso em um país que não tem saneamento em muitos lugares. É sensato usar bom conceito, bom gosto."



A cerimônia artística começa com imagens aéreas do Rio de Janeiro ao som de Aquele abraço, música composta em 1969 por Gilberto Gil. Do vídeo, dançarinos com quadrados prateados evocam imagem de mar e fazem contagem regressiva. Há uma menção clara ao concretismo, a obras feitas nos anos 1950 por artistas como Lygia Clark e Helio Oiticica. O hino nacional é cantado por Paulinho da Viola acompanhado por uma orquestra. Uma representação da origem da vida com insetos andando pela floresta inicia logo após o momento cívico do hino, e dançarinos do Festival de Parintins (Caprichoso e Garantido) interpretam indígenas que constroem suas casas na floresta. Em seguida, chegam caravelas com portugueses. A chegada dos portugueses não é pacificada, mas tampouco rompe com uma narrativa de encontro. Escravos negros fazem o chão se transformar de floresta em roçado e um grupo de dançarinos representando pessoas de ascendência árabe carregando malas (provavelmente indicando uma relação desses povos com o comércio) ocupam uma parte do cenário. Em seguida, a imigração japonesa é representada (lembrando que Japão é a próxima sede olímpica) e um grupo de possíveis chineses adentra o território. Os dois grupos se encontram e saem de cena. Aqui, a lavoura vira prédios da cidade contemporânea do Rio de Janeiro (um cenário bastante cantado pela Bossa Nova). Ao contrário do bloco passado, em que as músicas não eram reconhecíveis, aqui bailarinos dançam ao som de Construção de Chico Buarque. Constrói-se ali o 14-Bis, pilotado por Santos Dumont. Na fantasia, esse avião dá conta de passar pela catedral, pelos arcos da Lapa, pelo Museu do Amanhã, pela Marina da Glória, Corcovado, Lagoa Rodrigo de Freitas e Avenida Atlântica. A geografia representada de Rio de Janeiro é muito menor do que os limites municipais cartograficamente indicam. No retorno ao Maracanã, o neto de Tom Jobim toca Garota de Ipanema enquanto Gisele Bündchen desfila. Conforme ela anda, traços de Oscar Niemeyer se desenham no chão e Jobim é projetado nos prédios. Numa mudança dos prédios para a favela, construída como formas geométricas coloridas, Ludmilla canta O rap da felicidade. A dança nessa parte é sempre mistura de estilos urbanos. Elza Soares, em outra parte do cenário, que remete ao projeto da Câmara dos Deputados de Brasília e é usada desde o Hino Nacional, passando pelos ritos oficiais até o último show, canta o Canto de Ossanha (de Tom e Vinicius - não esses). Em seguida, Zeca Pagodinho e Marcelo D2 se apresentam e são substituídos por Karol Conká e MC Sofia enquanto um capoeirista se apresenta no centro do estádio. A capoeira precede um duelo de grupos de maracatu, que depois vira um grande baile com elementos tecnológicos. Nesse momento, Regina Casé interrompe e pede o fim das brigas; diz que estamos buscando nossas semelhanças e celebrando nossas diferenças. A maneira de concretizar isso é com Jorge Ben Jor cantando País Tropical (o ambiente tenso da capoeira e do maracatu é substituído por uma coreografia carnavalesca). Há uma quebra e um menino negro com roupa futurista chega a um ambiente distópico e começa um vídeo em que Fernanda Montenegro declama A flor e a náusea de Carlos Drummond de Andrade. Os atletas brasileiros entraram ao som de Aquarela do Brasil e quando todos estavam em seus lugares a vista aérea remetia aos jardins disformes de Burle Marx. Um homem velho e um menino tocam e dançam samba com caixa de fósforo, numa referência à gambiarra, ideia que estava originalmente por trás da concepção artística da apresentação. Da réplica do Congresso, Gilberto Gil e Caetano Veloso convidam Anitta para cantar o samba-exaltação de Ary Barroso Isso Aqui o Que É. A cerimônia artística acaba com a entrada de passistas, mestre-salas e porta-bandeiras e ritmistas de escolas de samba do Rio de Janeiro. Embora tenha sido feito por um artista norte-americano (Anthony Howe), muita gente associou a pira olímpica com a tradição cinética da arte no Brasil da década de 1960. No dia seguinte à abertura, Sheila Leirner publicou texto no Estadão dizendo que aquela escultura era decorativa e não arte (o texto não é bom, mas a discussão e a disputa me interessam).

Assim, para encerrar a análise, retomo a leitura de Frederico Coelho sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 como uma semana sem fim. Na abertura das Olimpíadas, muitos elementos de dita cultura brasileira estavam claramente representados. Me interessou olhar para esse evento porque procurei um momento culturalmente relevante e com um aspecto oficial. Um momento em que uma instituição tão século XIX como os Jogos Olímpicos precisa se perguntar o que é Brasil. Há muito mais continuidade do que ruptura, seja com 1922, com 1967, ou com o Estado Novo. Nesse sentido, a projeção de Coelho para 2022 parece aceitável. Não só por ser um governo de direita e uma hegemonia cultural de esquerda (afinal, muitos dos artistas ali se manifestaram publicamente contra o governo de Michel Temer, que também estava ali, como interino), mas porque parece existir claramente uma primazia do século XX (o samba urbano, a bossa nova, o rap, a arquitetura, expressões concretistas da arte, a poesia de Drummond) e uma convivência com o tradicional de modo quase folclórico (o maracatu, a capoeira, as formas indígenas de construir habitação). Na disputa das representações no âmbito oficial, e muitas vezes até bem longe da oficialidade, parece que o Modernismo se consagrou como vencedor, porque, afinal, a ideia de ser modernista foi ampliada. Inexiste na apresentação da abertura das Olimpíadas a arte do século XIX, construções urbanas que não remetam ao moderno, identidades nacionais que fujam muito da relação festiva entre três etnias (a imigração mencionada aparece com aspectos específicos vinculadas a atividades econômicas e desaparecem no Rio contemporâneo). Gisele Bündchen, por exemplo, é a mulher brasileira de Ipanema; não é a mulher gaúcha, de sobrenome alemão, numa região que tem celebrações muito particulares como a semana farroupilha.

Não foi em uma semana com apresentações artísticas em três dias que esse discurso se formou, mas talvez a Semana de Arte Moderna seja esse local de encontro de Mário e Oswald de Andrade que proporcionou forjar-se um discurso sobre arte e Brasil que reverbera até hoje.

terça-feira, 23 de maio de 2017

compilado de pensamentos organizados

Escrever é, de longe, a coisa que mais fiz na vida. E o padrão parece que se mantém. Só esse blog já tem 7 anos. Todos os outros que eu criei pra ficar mexendo nos códigos html me levam para 14 anos atrás. Antes disso existiam as aulas de redação e no Ensino Fundamental eu cheguei a escrever um caderno que contava uma história chamada "Meus livros velhos", em que um casal de livros tinha filhos humanos com quem iam para a chácara encontrar os animais (a obra mais surrealista já produzida em toda América do Sul). Escrever é uma forma de terapia e de organizar meus pensamentos (não é toda terapia uma forma de organizar pensamentos?) e então pra organizar os textos que me organizam está aqui este post.


Lucas é a pessoa com quem eu mais gosto de falar de música, porque ele me apresenta muitas coisas novas (a última foi Giovani Cidreira) e tem uma paciência tremenda com minhas teorias. Ano passado, ele começou um Medium para pessoas publicarem seus textos sobre música, que é um assunto sobre o qual eu gosto de falar de puro achismo, sem nenhum compromisso. Nessa pegada, criei uma conta e escrevi dois textos pra lá:

Além de usar daquela plataforma e dividir o aluguel com o Lucas, também inventamos com Seane uma newsletter - No episódio anterior - para comparar séries às nossas vidinhas banais. Como todo mundo já faz isso mesmo e vê nesses produtos audiovisuais só o que quer e sai por aí falando "NOSSA ISSO É MUITO EU", criamos essa carta por e-mail para contar para as pessoas o que é muito a gente em episódios que assistimos por aí. Dá pra ver uma parte dos textos no link mas de uns tempos pra cá estamos mandando só para os assinantes.


Thaís me pediu para contar sobre como é viajar sozinha para um projeto no blog dela e já faz um tempão e eu gostei do texto que escrevi mas esqueci de contar que escrevi. Então, aqui está o meu relato em forma de "Viajo porque preciso".


Eu sinceramente nunca achei que criar e reproduzir mundos pela escrita me levaria tão longe quanto os meses de abril e maio me permitiram. Passei três semanas escrevendo de dentro de ônibus em que grupos de artistas iam para o interior e litoral de São Paulo. Cada semana eu tive a oportunidade de conhecer novas pessoas e novas expressões em diferentes linguagens e a chance de escrever sobre elas pro site do Circuito Sesc de Artes. Tive a chance de me apaixonar mais de uma ou duas vezes e de ver quilômetros de estradas serem devoradas à minha frente. Fato é que, para além de toda poesia, se não fosse pro meu primeiro texto ser cheio de gifs, eu nem tinha feito as malas. Passei por Cubatão, Guarujá, Bertioga, Fernandópolis, Santa Fé do Sul, Mirassol, Bragança Paulista, Salto e Atibaia. Pra ter uma ideia de o que foram esses dias, deixo os links aqui.

domingo, 23 de abril de 2017

na dianteira sombra venha me seguir





Das mentiras que sempre nos contam a que menos me atinge é aquela que diz que nos arrependemos não do que fazemos mas sim do que deixamos de fazer. O que deveria ser um estímulo para me tirar da cama e viver uma vida intensa, na verdade não passa de uma frase sem sentido para uma pessoa que não vê problemas em fazer nada no tempo livre ou que igualmente se arrepende de coisas que fez. Amadurecer e acumular arrependimentos são expressões que possivelmente carregam raízes etimológicas semelhantes, bem como podem ser processos risíveis ou dolorosos. Como dizem que a gente se arrependeria mais do que não fez do que do que fez, e eu advogo que o arrependimento estaria em qualquer uma das duas coisas, carrego como um troféu cada momento desses registrados em que mesmo com chuva, frio, balada miada e pós-expediente, a gente deu um jeito de sorrir tão bonito assim. 
(Como já é clássico aqui, as fotos são de novembro de 2016 a janeiro de 2017)















♫ Metá Metá - São Jorge

domingo, 2 de abril de 2017

alguma coisa quente

 

Revelo o filme que já estava esquecido no armário, aguardando uma ida minha ao centro da cidade, e tento lembrar o que senti naqueles dias registrados na película. Me esforço um bocado mas até o exercício de colocar em ordem cronológica as fotos parece complicado. Até porque ocorreu a ideia de organizar em eixos temáticos... Como os dias em que Seane esteve conosco, ou quando a gente saía de madrugada pra dançar e finalmente as reuniões em casa. Não funcionou direito, volta pra ordem cronológica. As fotos cristalizam imagens boas da gente e o imperdoável atraso de duas horas que sofri por parte dos meus amigos não transparece na nossa imagem sorridente (embora um pouco cansada, de quem correu para dar conta de tudo). Parece que já faz muito tempo, porque não lembro onde guardei minha disposição para ficar na rua até tarde ou porque já não pinto mais meus cabelos de cor-de-rosa. Parece que faz muito tempo mas é só um pouco mais de seis meses. Mesmo assim, a câmera, em uma das fotos, por vontade própria, marcou um "'98" em laranja só para garantir meu discurso de que faz tempo mesmo.













♫ Donna Summer - Hot Stuff

segunda-feira, 27 de março de 2017

as vozes que me acompanham

Estava pensando em contar sobre os podcasts de que mais gosto na vida e percebi que no arranjo da internet, eu sou de um grupo que frequenta textos, fotos e áudios mas foi muito pouco cativada por vídeos. Muitos amigos meus tem sua gente que produz em vídeo favorita mas eu não saberia dizer quase nada do que pessoas que vivem de vlog fazem em seu tempo documentado em filmes para esse ambiente. Quando eu tinha muito tempo livre, lia sobre o que várias pessoas estavam fazendo - e assim surgiram muitos dos meus amigos na rede social informal que era a blogosfera. Agora que tenho quase nada de tempo livre, é no balanço do ônibus e na memória do celular que vou ouvindo esses programas de rádio sem rádio que são os podcasts. Se fosse décadas atrás, só uma radioamadora conseguiria chegar às frequências dessas paradas que tenho escutado.

O primeiro podcast que eu ouvi foi Serial e quem tinha me indicado foi a Dora. Ela me contou numa festa que tinha ficado um feriado de Carnaval inteirinho fechada em casa ouvindo esse podcast. Pensei que era exagero, que a gente se fica deitado ouvindo uma pessoa falar logo pega no sono e não entende nada de nada. Desconfiei. Mas logo depois que mudei para o apartamento, em abril do ano passado, pensei que precisava testar meu inglês que eu sentia não saber mais entender sem legendas. Fui atrás do podcast e fim da vida social como até então a entendíamos. Eu passei umas duas semanas muito feliz por pegar transporte público lento para ir para o trabalho e poder escutar a história do Adnan Syed, que foi condenado à prisão pelo assassinato da ex-namorada. A primeira temporada inteira é conduzida por Sarah Koenig (que tem uma voz apaixonante) tentando desvendar se Adnan era ou não o responsável pelo crime. Em cada episódio ela traz elementos diferentes como tensão racial em Baltimore, os métodos problemáticos da coleta de provas, a forma como a defesa de Adnan foi falha. Serial foi o podcast mais ouvido em 2014 nos Estados Unidos, as pessoas ficaram doidas pela história, grupos de discussão sobre o caso surgiram na internet, o caso foi reaberto, todos esperamos ansiosamente o desenrolar disso (mas já é alucinante pensar que um negócio que é um programa de rádio na internet mexeu dessa maneira com um julgamento). A segunda temporada é só ok, sobre o caso de um soldado americano que ficou anos como prisioneiro no Afeganistão. É interessante, tem questões complexas sobre Obama ter trocado prisioneiros de Guantánamo por esse soldado que era como um desertor pro exército, mas pode ouvir só a primeira temporada que já tá de bom tamanho.


Serial acabou e eu senti um vazio. A voz de Sarah era uma das minhas favoritas do mundo e histórias de crimes sempre me interessaram. Assim, comecei a ouvir dois outros podcasts em inglês: The Heart e Criminal. Eles não tem nada a ver um com outro.

The Heart é basicamente sobre intimidade, isso pode ter ou não a ver com amor e sexo. A produção mais recente é uma série chamada Pansy sobre masculinidades e feminilidades, com uma proposta queer. Todos os episódios são muito bem produzidos, seja nas narrativas ficcionais como também nas documentais, e variam bastante de tempo de duração. Dois episódios de que gostei muito são: Mariya, sobre uma vítima de mutilação genital, a escritora Mariya Karimjee, que conta sobre sua infância no Paquistão, sua adolescência no Texas e suas relações interpessoais nessa descoberta sobre seu corpo e essa cultura; To Nora tem pouco mais de quatro minutos e é a narração de uma carta pessoal do escritor James Joyce à esposa com uma pegada bastante erótica. Já Criminal é sobre crimes reais, mas de um jeito tão real que é prosaicamente maravilhoso. Os episódios diferem muito entre si e um indicativo de que eu gostei dele é chegar em casa comentando com os amigos que moram comigo. Isso aconteceu pela última vez no episódio Melinda and Judy sobre adoção de crianças raptadas. Mas também lembro de ter ficado perplexa com o episódio Money Tree sobre roubo de identidade e crimes financeiros.


Só que eu estava sentindo falta de ouvir algo em português e Ísis me indicou alguns podcasts brasileiros. Como até então meus podcasts favoritos eram narrativos, se preocupavam em contar uma história mais do que tudo, não me imaginava ouvindo podcast com pessoas conversando. Mas faz algumas semanas que só lavo a louça, penduro a roupa e me arrumo para ir trabalhar ouvindo o Salvo Melhor Juízo, um podcast sobre direito feito por um pessoal de Curitiba. Até o momento, minha lista de três episódios favoritos são: Ruy Barbosa (perdão, sou historiadora), Política de Drogas e Tribunais Internacionais.

(De vez em quando eu também escuto Los Cartógrafos, que é um podcast mais literário de um pessoal da Argentina, ou o Art + Ideas do Getty. E às vezes eu também gosto de não escutar nada porque um silêncio de vez em quando não faz mal a ninguém. Mas se tiver sugestões de podcasts, sempre aceito)